10 de abril de 2011

SOBRE A TRAGÉDIA DE REALENGO.

Em meio a consternação geral com a tragédia ocorrida no dia 7 em Realengo em que como dirigente sindical tivemos tarefas de solidariedade e denúncia sobre o descaso das "autoridades" para com a educação, posto a carta abaixo da professora Maíra Baczinski, de Niterói, que recebi por e.mail, e que em alguma medida reflete um sentimento que perpassa toda categoria.

"Tiros em Realengo.

Hoje, dia 7 de abril, a sensação que eu tive ao chegar na escola em
que trabalho às 7h da manhã era de que o dia seria longo. Ao longo da
manhã, inúmeras confusões, brigas, tumultos me fizeram achar que os
“demônios” estavam soltos. Mal sabia eu o que acontecia em outra
escola, não muito longe dali, do outro lado da cidade. Durante o
intervalo, escutei de uma funcionaria da escola que tinha acontecido
um acidente em uma escola em Realengo. Mas só pude realmente me
interar das noticias quando cheguei em casa.

Impossível descrever com palavras tudo que passou pela minha mente.
Sensações confusas, tristeza, muita tristeza, cansaço, e também
revolta, desilusão, desespero, solidão, agonia. Desconsolo, solidão.
Eu sozinha acompanhava aos prantos o noticiário local que dava plantão
sobre as ultimas informações ao vivo do lugar.

A primeira sensação era que poderia ter sido comigo. Poderia ter
acontecido ainda agora, na escola em que eu estava. Poderia ter sido
com o Andrei, um menino levado da 603 que quase tomou suspensão porque
bateu num coleguinha da turma. Poderia ter sido com a 802, uma turma
que eu gosto muito, cheia de alunos inteligentes e participativos, que
provocam discussões e questionamentos interessantes.

Poderia ter acontecido com outros colegas meus, amigos da faculdade ou
de profissão, que estão diariamente enfrentando a realidade escolar,
mesmo com todas as dificuldades, salários baixos, escolas longes,
falta de pilot pra escrever no quadro, falta de livro para os alunos,
alunos desinteressados, analfabetos funcionais, agressivos e mal
educados.

Não estou querendo colocar a culpa nos alunos não. Mas eles
infelizmente estão chegando assim na escola. Não conhecem a palavra
respeito. Conhecem muitos palavrões, xingamentos, adoram provocar uns
aos outros, xingar a mãe e o pai alheio, ou falar que alguém falou
sobre o pai de outro. Isso é tão comum que as vezes nem nos
incomodamos mais com esses pequenos incidentes, esses “disse-me-disse”
que perturbam a paz e provoca o que os especialistas chamam de bulling
e a meu ver é fofoca mesmo, essa coisa de controlar a vida alheia e
provocar até tirar o outro do sério.

Hoje, no terceiro tempo de aula, por volta das 9h, dois alunos
começaram a se provocar no meio da aula. Eu pedi silencio, e continuei
passando o dever no quadro. Quando me virei de costas, saíram se
batendo com chutes e pontapés. O meu impulso foi ir para o meio da
briga, (apesar de os especialistas sugerirem que os professores se
afastem) e como eram pequenos, consegui segura-los. Assim que separei
os dois, o Luiz Carlos, um garoto de 12 anos e 1,20m começou a
implorar: “por favor professora, não me suspende, por favor, por
favor!”, muito insistente e quase chorando, me prometendo que não ia
mais fazer isso.

Nesse momento, a descontrolada era eu. Fiquei muito nervosa com a
situação, não sabia o que fazer. Não podia deixar o acontecimento
passar impunemente, mas também não podia deixar de me comover com
aquele toco de gente implorando para não ser punido, muito mais vítima
da violência do que o seu provocador. Segurei as lágrimas para não
chorar ali, na frente da turma, e logo em seguida fui para o banheiro,
os dois desceram para a orientação educacional.

Eu, que deveria ser o exemplo, a representante das boas ações, daquilo
que é certo, eu que passei mais de 20 anos estudando, me preparando
para o ofício, simplesmente não sabia o que fazer. Os anos da
faculdade, a quantidade absurda de conteúdos relacionados a seres
vivos, células, artrópodes, genética, vegetais, nada daquilo me era
útil naquele momento. Mesmo as matérias da educação, como sociologia,
psicologia, filosofia nem de longe tocaram em algum conteúdo que me
ajudasse a tomar alguma providencia naquela situação. Até o mestrado
em Ensino de Ciências e Saúde não me ajudou. Anos de estudo jogados no
lixo, é esse meu pensamento. Mal sabia eu o que estava acontecendo em
Realengo naquele mesmo momento, e que isso que eu estava passando “não
era nada” em comparação com a escola Tasso de Silveira.

Lembrei depois também da prova do concurso, que só avaliou
conhecimentos teóricos sobre essas matérias, e também dos exames
médicos e psicológicos que tive que passar para assumir o cargo. Em
nenhum desses momentos me informaram sobre como lidar com a violência
ou me avaliar se eu estava preparada para agir quando acontecesse na
minha frente. E, no entanto, como professora de ensino fundamental do
estado do RJ posso relatar inúmeros casos de violência e agressão que
ocorrem diariamente nos corredores e espaços mediadores da escola,
dentro dela ou nas proximidades. Os palavrões, xingamentos,
provocações, depredação do espaço e do material dos próprios alunos,
são ocorrências diárias dos espaços escolares públicos do RJ. É
impossível dizer exatamente quando foi que isso tudo começou para
acabar com a tragédia de hoje. Mas também seria muito ingênuo
acreditar que isso nunca aconteceria. É que a gente não gosta de
alimentar os maus pensamentos, e fica acreditando que “isso não vai
acontecer”, sem plantar as sementinhas no presente, no aqui agora. E
aí o pensamento positivo não faz milagre sozinho. Enquanto a violência
for ignorada e omitida nas escolas, ela se perpetuará e se dissipará
em níveis que preferimos não imaginar. Como essa tragédia de hoje.

E nós até podemos refletir sobre as condições das escolas de hoje no
Rio. Podemos e numerar os problemas. Falta infra-estrutura. As escolas
não têm carteiras para todos os alunos, e muitas turmas são
aglomeradas em salas muito cheias. Falta material, equipamentos e às
vezes, falta até telha e chove na sala de aula, como presenciei uma
vez, dando aula. Faltam professores e funcionários no quadro regular
das escolas, sobrecarregando os que estão ali trabalhando com turmas
superlotadas, ou acumulo de funções, impossibilitando um bom trabalho.

O nosso governo estadual tem a cara de pau de pagar R$ 680 líquidos de
piso salarial para os professores. Só para comparar, qualquer
atendente de telemarketing ganha mais do que isto, visto que recebe
além de um salário mínimo, cerca de 530 reais, mais vale transporte e
alimentação. Nós não recebemos esses auxílios.

Mas o mais grave não são esses dados. São as conseqüências para os
alunos: baixo rendimento, indisciplina, má formação dos alunos e
altos índices de evasão. As estatísticas apontam que cerca de 80% dos
estudantes de classe baixa evade antes da conclusão do ensino
fundamental. A avaliação do ensino vai de mal a pior, e índices como o
SAEB apontam o RJ com um dos piores resultados no ranking nacional.

Mas o x da questão perpassa a questão estadual. Atualmente a escola
não consegue formar ninguém, e mesmo quando forma, forma o que? Que
tipo de pessoas são formadas quando tem um bom rendimento escolar?
Será que a conclusão dos estudos conduz necessariamente a um futuro
digno, a uma profissão, a inclusão social, a um emprego e um salário
decente?

Provavelmente por isso, os alunos se inspiram em outros tipos de
"heróis", que estão longe de serem realmente uma boa saída. Por
exemplo, faz pouco tempo que aquele goleiro Bruno assassinou a
namorada de uma forma brutal. Essa é uma tragédia anunciada que deve
ser tida como o modelo daquilo que os nossos alunos/filhos admiram. O
sonho de qualquer garoto em idade escolar é se tornar jogador de
futebol e ganhar muito dinheiro (que nenhum professor pode sonhar em
ter). O sonho das garotas, por sua vez, é se tornar modelo/atriz, e,
na medida do possível, engravidar de alguém com condições financeiras
para sustentá-la para o resto da vida. Duas pessoas jovens, que ao
menos para os nossos padrões de “vida boa” teriam tudo para serem
felizes, gastarem seus dinheiros e criar o seu filho simplesmente
acabaram com suas vidas, mostrando que isso não é suficiente para o
final feliz . Esse outro crime tão cruel, revela simplesmente para
onde estamos encaminhando nossas crianças, uma vez que dentro da
escola elas não encontram referencias felizes, ou modelos de vida que
lhes inspirem (como os jogadores e modelos, que mesmo sem estudos,
conseguem muito mais dinheiro do que nós, pais e educadores, meros
mortais). Que tipo de sociedade estamos criando? Que modelos
oferecemos para nossos filhos/alunos? Em quem eles podem se inspirar?

Em se tratando de vida acadêmica, desde o ensino fundamental até as
pós-graduações, cada vez mais inclui-se conteúdos específicos,
aumentando o currículo. As escolas e universidades são avaliadas como
boas quando seus alunos passam por testes teóricos dificílimos, que
avaliam a aquisição de conteúdos. Mas não se discute como se tratar
de questões transdisciplinares, como respeito, cidadania, violência,
trabalho. Não se discute a diferença da quantidade de horas de aula de
cada disciplina, que gera um desequilíbrio, privilegiando algumas,
como ciências, português e matemática, e negligenciando outras tão
importantes quanto, como artes, sociologia, história e filosofia. Não
se discute as práticas, as maneiras de fazer, os métodos de ensino e
de avaliação. Apenas submete as pessoas a provas de raciocínio lógico
e extrai-se um índice baseado na média de acertos. Todos os
sentimentos, a auto estima, a violência, a tolerância, a amizade, o
ambiente, os sentimentos de pertencimento, a organização coletiva, a
mobilização e discussão de temas contemporâneos, tudo isso fica de
fora. De fora das avaliações e de fora das preocupações.

Obviamente os governantes se envergonharam desse índices, que andam
baixíssimos, e reunidos em seus gabinetes tomaram decisões, a meu ver,
equivocadas, para "solucionar o problema", sem consultar ou
compartilhar essa questão com os profissionais que pensam e atuam na
educação. Para eles, “solucionar o problema” parece se restringir a
melhorar os números das avaliações, e não refletir sobre o cotidiano
escolar e a base estrutural do problema. São remediações que podem até
forjar uma melhoria no algarismo do índice, mas que efetivamente não
contribuem para a melhoria do ensino.

Agora que um crime hediondo como esse, o Massacre da escola Tasso de
Silveira vêm a tona a única conseqüência desse descaso histórico com a
educação: o assassinato de 12 crianças e mais 11 vitimas em
atendimento, todos com menos de 14 anos.

Passado o choque provocado pela exploração do caso na mídia, é
preciso que as pessoas despertem para a gravidade do caso, não apenas
penalizando o autor dos disparos, mas sim alertando para o abandono
que a educação sofre no Rio de Janeiro e em todo país. A culpa
individual não soluciona em nada o problema, e seguir adiante sem
pensar em todas as facetas da educação que levaram a este episódio é
tapar o sol com a peneira e não observar com atenção a realidade em
que vivemos.

A escola é o lugar do conhecimento, de transformação, de formação de
cidadãos, de seres humanos. Todos passamos por ela, e esperamos que
nossos filhos, netos, amigos ali se formem, para se tornarem
professores, médicos, enfermeiros, advogados, enfim, profissionais e
cidadãos que atuem na sociedade, pela sociedade.

Quem já ligou a televisão antes das 11h da manhã e acompanhou a
programação infantil, deve perceber a quantidade de desenhos violentos
que são oferecidos diariamente para os pequenos. Não se mostra
referencias de paz, afeto, integridade, mas sim, de heróis mutantes,
superdotados, ou simplesmente ricos, lutando contra monstros, pessoas,
as vezes até países. Se formos falar dos filmes, então, mais uma
enxurrada de violência gratuita e valorizada, sequencias de mais de 10
minutos de tiros e efeitos especiais que transmitem a mensagem: “olha
como a violência é bela, que herói maravilhoso conseguiu matar um
exercito inteiro sozinho,” e permanecemos em silencio com nossos olhos
vidrados na tela esperando o final bem sucedido de um único
personagem. Não quero dizer que a televisão seja exclusivamente
culpada, mas que exerce uma influencia forte sobre os jovens, isso não
pode ser ignorado. Quem nunca saiu excitado de uma sessão de cinema,
com os “atos heróicos” vividos durante 1h30 de sangue e tiros? Quem
nunca se imaginou atirando na fila do banco ou detonando bombas para
encontrar uma vaga no estacionamento? A nossa cultura está cada vez
mais vazia de bons exemplos e valores, e cada vez mais perdida na
formação dos nossos sucessores, nossos filhos, netos, bisnetos.

Eu creio que isso é o pior: essa sensação de que não podemos fazer
nada, de que somos poucos e mortais diante do "sistema", da
organização geral e maior que rege todos os problemas. Temos que lutar
contra o medo, a inação e o conformismo, e catalizar esse sentimento
de frustração, revolta e inseguranças em ações para a melhoria das
escolas de nosso país.

Vamos discutir a educação, vamos pedir às autoridades que compreendam
que a educação é uma estrutura base crucial para o desenvolvimento da
nação, que não pode ser remediada com medidas superficiais e de curto
prazo. Precisamos de mais verbas para a educação, mais profissionais,
mais infra-estrutura, mais livros, mais amor.

Vamos fazer com que essas crianças nao tenham morrido a toa, vamos
impedir que mais inocentes sejam assassinados, nao apenas a tiros, mas
diariamente massacrados pela organização social a que pertencemos.

Professora Maíra Baczinski
Niteroi, 7 de abril de 2011."

25 de março de 2011

O saldo da visita do Obama

O primeiro presidente negro dos EUA deixa um saldo bastante negativo de sua visita ao Brasil.
Em princípio quebrou uma tradição que impunha que a uma visita americana ao Brasil, uma anterior brasileira tinha que ser realizada. As novidades param por aí.
Talvez nunca tenhamos visto tamanho aparato de segurança mobilizado para a visita de um chefe de estado ao Brasil.
No Rio de Janeiro, helicópteros sobrevoaram a cidade antes, durante e depois da visita, com uma intensidade sem precedentes. O fechamento do comércio e do trânsito nos arredores do Theatro Municipal só não se consolidou por completo graças a ação judicial promovida pelo Bar Amarelinho, verdadeiro símbolo da cidade, que dessa forma continuou funcionando. De resto parecia que estávamos em um país em guerra. A segurança exigiu inclusive que o metrô não circulasse entre as estações da Uruguaiana e Cinelândia.
Em Brasília, policiais federais brasileiros foram revistados por seguranças americanos, uma vergonha.
Antes da chegada de Obama ao Brasil, 13 manifestantes foram presos, acusados de terrorismo após ato público na porta do consulado americano no Rio, quando houve lançamento de coquetel molotov, acredita-se que por provocadores.
Os homens presos tiveram suas cabeças raspadas, incomunicáveis, num gravíssimo ataque às garantias individuais mínimas, mesmo em se tratando de um estado burguês como o brasileiro.
Em território brasileiro Obama comunica a invasão e bombardeio à Líbia, oficialmente até quarta-feira passada quase 100 civis já tinham sido mortos pelas forças da Otan.
Para o governo brasileiro e exportadores primários, a decepção em constatar que o fim do protecionismo não veio junto com Obama.
Ah! Já ia esquecendo, o Bar Amarelinho, que conseguiu liminar para continuar funcionando no dia da visita de Obama ao Rio, foi fechado anteontem pela Vigilância Sanitária.
Qualquer retaliação não é mera coincidência.

22 de janeiro de 2011

17 de janeiro de 2011

Artigo do Frigotto e outros sobre Plano de Metas da Educação do Rio de Janeiro

Plano de Metas da Educação do Rio de Janeiro: do economicismo ao cinismo

Gaudêncio Frigotto, Vânia da Motta, Zacarias Gama e Eveline Algebaile.

Em entrevista ao Globo News, o Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro, Wilson Risolia, na sexta-feira, dia 07.01.2011, anunciou as cinco frentes de trabalho para a educação pública ao longo dos próximos quatro anos. Em extensa matéria, sob o título Choque na Educação, o jornal O Globo (08.10.2011, p. 14) detalha estas medidas. Confessamos que ficamos estarrecidos pelo caráter economicista e tecnocrático, e pela superficialidade das medidas propostas.

As cinco frentes de trabalho apresentadas teriam como objetivo atacar as questões pedagógicas, o remanejamento de gastos, a rede física, o diagnóstico de problemas e os cuidados com os alunos.

As medidas mais destacadas, porém, foram a implantação de um regime meritocrático para a seleção de gestores; a realização de avaliações periódicas; o estabelecimento de metas de desempenho para balizar a concessão diferenciada de gratificações aos docentes; e a revisão das licenças dos 8 mil professores em tratamento de saúde. Ou seja, medidas que reforçam a ideia de que, no fim das contas, os profissionais da educação são os responsáveis pelos problemas educacionais, resumidos, por sua vez, aos baixos índices obtidos pela rede estadual no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB).

Um exemplo da lógica de suspeição aí implicada é a contratação de uma empresa privada para passar um pente fino nas licenças médicas, sinalizando um duplo pré-julgamento: aos profissionais de saúde que concederam a licença e aos próprios professores que buscaram atendimento. Por certo, há implícita uma meta de quantos destes não podem passar no pente fino e deverão, agora saudáveis e motivados, voltar às salas de aula.

Trata-se, portanto, de uma proposta que não vai ao fundamental e pega o pior atalho: premiar quem chega às metas, metas imediatistas, de lógica produtivista, que não incorporam medidas efetivas voltadas para uma educação pública de qualidade. A lógica subjacente à proposta, que já está sendo chamada de choque de gestão de administração, apenas trabalha com dois conceitos fundamentais: forçar o professorado a produzir um IDEB elevado, sem efetivamente melhorar as suas condições de trabalho, e baratear o custo da educação adotando, de imediato, a meta conservadora de economizar R$ 111 milhões dos gastos. Uma lógica tecnocrata que reconhece somente cálculos de custos e de benefícios, que vê as pessoas apenas como dados, destituídos de vontade e voz, indo de encontro às próprias bases ideológicas liberais e neoliberais que ainda consideravam o homem dotado de livre iniciativa, mesmo em sua forma de indivíduo, homo economicus.

O espantoso é que a Secretaria de Estado do Rio, com essa proposta, caminha visceralmente na contramão dos encaminhamentos concluídos nas reuniões da Conferência Nacional de Educação de 2010, do que foi acordado no novo Plano Nacional de Educação e do que vem sendo discutido no Fórum Estadual em Defesa da Escola Pública, há poucos dias instalado por dezenas de entidades ligadas à educação, à cultura, aos movimentos sociais e às instituições de ensino e científicas do estado do Rio de Janeiro. Mais que isso, em total dissonância com a indicação que a Presidente da República, Dilma Rousseff, fez em seu discurso de posse, para enfrentar o problema da educação: reconhecer o professor como a autoridade pedagógica de fato e de direito.

Mas só existirá ensino de qualidade se o professor e a professora forem tratados como as verdadeiras autoridades da educação, com formação continuada, remuneração adequada e sólido compromisso com a educação das crianças e jovens. (Dilma Rousseff, Discurso de posse, 01.01.2011).

Os debates e proposições aí implicados vêm afirmando insistentemente que não se fará educação de qualidade sem restituir às instituições plenas condições de funcionamento, tornando-as atrativas e adequadas ao bom aprendizado dos alunos; sem garantir, aos profissionais da educação, as condições de trabalho que favoreçam o efetivo exercício da autoria pedagógica e da atuação coletiva na construção do processo educativo escolar; sem dar sustentação a cada escola para que ela se torne o lugar de uma experiência participativa efetivamente capaz de ampliar seus sentidos como instituição pública.

Ignorando os acúmulos desse debate, a Secretaria aposta exatamente no seu contrário, impulsionando a estandardização da rede estadual, por meio da subordinação de sua organização e gestão pedagógica a critérios mercantis, e da sujeição de suas instituições e profissionais a relações de disputa e concorrência.

A estandardização da educação, dura e seriamente questionada hoje por vários setores da sociedade, camufla-se, comumente, por meio do discurso do mérito, do desempenho, da competência e da eficiência, omitindo a grave responsabilidade das próprias elites e do Estado, no Brasil, na longa história de produção reiterada de uma escola precária para a grande maioria da população. Caracteriza-se principalmente, no entanto, pelo estabelecimento de mecanismos padronizados capazes de operar o posicionamento diferenciado dos profissionais e das instituições, reiterando a produção desigual da escola por meio da sua suposta “modernização”.

A instituição de premiações, a contratação de empresas gestoras de processos, o estabelecimento de mecanismos de avaliação orientados para a produção de rankings, a instauração de regimes de trabalho que associam a concessão de gratificações diferenciadas à atuação de profissionais e instituições em processos concorrenciais semelhantes a gincanas são exemplos dos mecanismos que operam essa crescente diferenciação. Seus resultados são já bem conhecidos: a intensificação do estabelecimento de regimes e estatutos profissionais diferenciados; a desagregação do professorado em decorrência da instauração de relações concorrenciais entre professores e entre escolas; o não reconhecimento do professor como profissional capaz de dispor sobre o próprio trabalho; a subordinação da gestão educacional e da ação escolar a agentes externos não coadunados com os fins e a função pública da educação; a consolidação de padrões desiguais de formação escolar.

Sem situar o professorado no coração do processo de resgate da qualidade da educação fluminense, melhorando significativamente o seu salário, carreira docente e condições objetivas de trabalho, não há perspectiva real de alterar de fato o atual quadro da educação básica, como sublinhou, também, o ex-Ministro de Assuntos Estratégico, Samuel Pinheiro Guimarães, no Seminário organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da UERJ – Qual desenvolvimento e Educação e para que Sociedade? – e do qual o atual Secretário de Educação do Estado participou na abertura.

Recentemente, os Senadores Pedro Simon e Cristovam Buarque apresentaram Projeto de Lei pelo qual se estenderia o mesmo reajuste salarial aprovado para os Senadores, de 61,78%, para os professores da educação básica das escolas públicas. Os Senadores tomaram como referência a menor base do piso (não reconhecida pelas entidades que representam os professores, que era de R$ 1.024,00). Esse percentual de aumento representa, de fato, uma novidade, se considerarmos que os reajustes dos profissionais do campo das políticas públicas raramente se aproximaram das nababescas auto-concessões do legislativo e do judiciário. Deve-se, porém, observar que, aplicando aquele reajuste, o piso seria de R$ 1.656,62, 16,13 vezes menor que o salário pago aos parlamentares a cada mês: R$ 26.723,13; o equivalente a 3 salários mínimos. Cabe lembrar aqui que os professores não tem o acréscimo de verba de representação para a compra de roupa, livros, correio, transporte, vale alimentação, etc. E, com certeza, o nível de escolaridade médio dos deputados e senadores não é diferente, talvez menor do que dos professores.

Perguntas de quem não quer calar-se perante o cinismo:

Por que não colocar o mesmo piso de 1.656,62 aos ministros, governadores, deputados, senadores, prefeitos, vereadores, judiciário, professores universitários, juízes, desembargadores, delegados, generais, etc. e estabelecer uma espécie de IDEB de cada função, com metas quantitativas, oferecendo ao final de cada ano mais três destes salários-base por produtividade?

Quem se candidataria a tão nobres funções por essa mixaria e com tal pressão e controle? Por que não, também, estipular este valor como margem máxima de lucro para os banqueiros e empresários? Já imaginaram?

Pois, senhores, estão oferecendo esta mixaria aos que cuidam da educação básica da maioria do povo brasileiro (a escola pública no segmento da educação básica – do ensino fundamental ao médio – atende mais de 80%dos estudantes), menos, certamente, dos filhos das profissões ou atividades, entre outras, listadas acima.

Os milhares de professores que atuam na educação pública brasileira podem ser tudo, menos idiotas. O que se está propondo no Estado do Rio de Janeiro e em muitos outros estados e municípios (entre os quais do Rio de Janeiro que se antecipou ao estado) resulta de opções tecnocratas, apoiadas na ideia de que a educação não é um direito social e subjetivo, mas um serviço, uma mercadoria e, por isso, como a define o Secretário, um “negócio falido” como qualquer outro. Nesse quadro, os docentes são tidos como meros entregadores dos pacotes de conteúdos previamente preparados por economistas, administradores, empresários... que se assumem como “autoridades em educação”.

Professores, pais, responsáveis, jovens e estudantes, unamo-nos às dezenas de entidades que instalaram em dezembro de 2010 o Fórum Estadual em Defesa da Educação Pública no estado do Rio de Janeiro, no dia 23 de fevereiro próximo, na UERJ, para dizer alto e em bom som: não queremos ser idiotizados. Não reconhecemos essas medidas como legítimas, porque ignoram a história de luta da sociedade brasileira de quase um século pelo direito efetivo à educação pública de qualidade.

Gaudêncio Frigotto, Zacarias Gama e Eveline Algebaile são professores do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Vânia da Motta é professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

26 de dezembro de 2010

RESENHA “Minha Bola, Minha Vida”- Nilton Santos

RESENHA
“Minha Bola, Minha Vida” – Nilton Santos- ED. GRYPHUS- 1999
Terminei de ler recentemente a auto-biografia de Nilton Santos “Minha Bola, Minha Vida”.
Afora as maravilhosas passagens em que tornou-se bi-campeão mundial com a seleção brasileira, a vida da “Enciclopédia do Futebol” transcorreu sem as grandes polêmicas e sobressaltos da maioria das grandes celebridades, inclusive futebolísticas, vide Garrincha, Heleno de Freitas e tantas outras personagens controversas.
Mas é a simplicidade que faz com que a leitura flua com leveza e frua de nossa atenção como poucos textos dentre as normalmente enfadonhas biografias.
Nilton fala de sua infância pobre, como pobre éramos quase todos, felizes, sem grandes provações e sem o consumismo das crianças de hoje. A bola de meia, era inteiramente amiga de Nilton, de Cândido e Binininho, fundadores do Fumo, time de várzea da Praia das Flexeiras, na Ilha do Governador no qual debutou Nilton Santos.
Fala de suas amizades com jornalistas como Sandro Moreira, Armando Nogueira, de “personalidades” como Neném Prancha, eterno “filósofo” alvinegro.
O livro conta das amizades com outros jogadores, principalmente Garrincha, seu compadre, com quem conviveu até pós-enterro. Transcreve diálogos e tiradas do craque das pernas tortas como quando Garrincha diz que jogar na seleção é igual a jogar no Botafogo, tal a quantidade de jogadores alvi-negros envergando a amarelinha.
“Meus alunos da “Escolinha de Futebol Nilton Santos”, em Brasília, quando falo e passo filmes do Mané, eles não acreditam, acham que é montagem.
Nilton Santos idolatra o dirigente Carlito Rocha, verdadeiro apaixonado pelo Botafogo, que foi à falência por dar dinheiro seu ao clube, que tratava seus jogadores como filhos e vivia a vida do clube como nenhum outro, como nenhum outro também em suas supertições.
A Enciclopédia relata os acontecimentos das copas em que participou, de 50 no Maracanazo, isenta Barbosa, goleiro execrado por ter tomado o segundo gol uruguaio. Para Nilton Santos, o verdadeiro responsável pelo gol de Varella teria sido Juvenal, beque de área que deveria cobrir Bigode, lateral driblado quase no meio campo.
Nessa Copa do Mundo o já craque Nilton Santos não jogou um só jogo, já sabia, Flávio Costa, o todo poderoso técnico da seleção à época gostava do “zagueiro zagueiro”, disse inclusive que a chuteira do maior lateral esquerdo do mundo de todos os tempos tinha o “bico muito mole”.
Dois fatos aparecem com relevo nos relatos sobre a Copa de 54. O primeiro a quantidade de compras efetuada pela delegação, que causou receio inclusive sobre as possibilidades de prejuízo ao vôo de volta ao Brasil. O segundo fato diz respeito ao total desconhecimento do regulamento por parte da delegação brasileira. No jogo contra a Iuguslávia um empate bastava a ambos, enquanto o adversário passava a bola fazendo o tempo passar no empate em 1 a 1, o Brasil corria desembestadamente atrás do gol da vitória, para desespero dos europeus, que gesticulavam tentando mostrar que aquele resultado beneficiava aos dois times.
Após o empate, os brasileiros cabisbaixos só ficaram sabendo da classificação à próxima fase tarde da noite no hotel.
Em 58 finalmente o título, Nilton Santos consagrado como uma unanimidade, Pelé aparecendo para o mundo e Garrincha assombrando a todos.
Em 62 a consagração e a confirmação de uma geração de ouro do futebol mundial com o Botafogo à cabeceira. Pode-se dizer que o Botafogo ganhou aquela Copa sozinho, pois Garrincha e Amarildo jogaram por eles e por Pelé, que esperava-se ser a grande sensação daquela Copa.
Nilton Santos discorre sobre “treinadores e treineiros”, entre os primeiros cita Zezé Moreira, Vicente Feola, Aymoré Moreira, João Saldanha e Paulo Amaral.
Como treineiro cita Gentil Cardoso, “malandro [...] só gostava dos jogadores que tinham mais nome dentro dos clubes, que eram da seleção. [...] humilhava muito os reservas.”
Nesse mesmo capítulo fala de árbitros e de sua polêmica com Armando Marques.
Num jogo entre Botafogo e Corinthians, no Pacaembu, o dito árbitro marcou um pênalti inexistente, Nilton foi reclamar e “Ele, todo nervosinho, veio falar comigo e colocou o dedo na minha cara. [...] dei-lhe uma porrada.” Nilton Santos justifica: “Já pensaram, eu chegando em casa, ele [meu filho] me cobrando uma atitude...”
Nilton fala ainda dos maiores jogadores que viu jogar, de sua carreira como treinador de futebol e sua experiência com escolinhas de futebol pelo país afora, como no Rio, em Brasília e Campo Grande-MS.
Essa experiência é para a velha Enciclopédia do Futebol uma das mais gratificantes de sua vida.
O livro se encerra com um registro de todos os jogos de Nilton Santos e com fotos de enorme valor histórico do maior lateral esquerdo de todos os tempos, que certa feita arrancou o seguinte comentário de Nestor Rossi, técnico do River Plate, após um primeiro tempo em que Garrincha massacrara Vairo, lateral do alvi-rubro e da seleção portenhos: “[Vairo] Você está vendo aquele jogador ali? Mostrava em direção a mim, estava de uniforme limpo, meias em cima, tranqüilo caminhando para o vestiário – Pois é, ele é o Nilton Santos, é lateral como você. Vá lá perto, passe a mão na perna dele para ver se você melhora. Ali naquelas pernas está o futebol de todos os beques do mundo.”
Espero que todos que tenham lido esta resumo se apeteçam a ler este livro, mais uma página brilhante de nosso futebol e do Glorioso Botafogo!

21 de dezembro de 2010

NOTA DE FALECIMENTO

Faleceu na noite de ontem o diretor do Núcleo do SEPE de Angra dos Reis, Cezar Lima.
O companheiro foi vítima de acidente automobilístico na Rio-Santos, altura de Muriqui, quando voltava de Angra dos Reis, onde lecionava História no Colégio Estadual Antonio Dias Lima, no Frade, para sua residência no Rio de Janeiro.
Cezar fez parte da Comissão Provisória do Núcleo de Angra eleita em 2008, que retomou os trabalhos no município após vários anos de funcionamento em caráter precário.
Em 2009 participou da Chapa 1 “Unidos Somos Mais Fortes”, concorrendo à direção estadual e à direção do Núcleo Municipal. Desde então era diretor do Núcleo.
Companheiro combativo no movimento sindical, atuava também no Centro Cultural Otávio Brandão, em Maria da Graça.
Cezar também era professor da rede municipal do Rio de Janeiro, lecionando em Campo Grande.
Cezar Lima deixa sua companheira Vitória, aguerrida militante da Justiça Estadual e um filho adolescente, além de um vazio na militância política em nosso país.
Seu corpo será sepultado às 9 horas de amanhã no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap.
Sem que nunca saia de nossas lembranças:
Companheiro Cezar?
Presente!
Companheiro Cezar?
Presente!
Companheiro Cezar?
Presente!

4 de dezembro de 2010

A QUANTAS ANDA A EDUCAÇÃO NO RIO DE JANEIRO?

“Até pela minha formação, entendo a educação como um negócio.”
Com essas palavras tomou posse logo após as eleições o novo secretário estadual de educação do Rio de Janeiro, Wilson Risolia. Sua colega de pasta na capital, Claudia Costin, se notabilizou na reforma administrativa do governo FHC. Em comum entre os dois o fato de nenhum ter formação em magistério e nunca terem pisado uma sala de aula no ensino básico.
A ascenção de Collor ao governo em 1990 inaugurou no Brasil o que na década de 80 já se vislumbrava na Inglaterra e no Chile com a alcunha de neoliberalismo.
As incessantes crises de super produção do capitalismo impeliram as burguesias a novos mercados e a novas fontes de lucros. Se por um lado alardeavam aos quatro ventos que os estados não deveriam se imiscuir na produção, daí a privatização de grandes empresas estratégicas nos diversos países capitalistas (no Brasil: CSN, Vale do Rio Doce, Metrô, Light, etc.), por outro fizeram de serviços básicos como saúde e educação uma nova fonte de receita, seja através da diminuição de investimentos nessas áreas para aumentar o chamado superávit primário, seja na terceirização/privatização das escolas e hospitais ou ainda na venda de vagas nas escolas particulares para os governos.
Nossos dois secretários são legítimos representantes do que se convencionou chamar de neoliberalismo na educação.
Tanto nas unidades municipais quanto nas estaduais vicejam a terceirização e a precarização das relações trabalhistas.
Nas cozinhas das escolas municipais já não vemos a antiga merendeira, normalmente moradora da comunidade onde se localiza a escola, conhecedora de seus moradores e alunos, ligada afetiva, pedagógica e funcionalmente à unidade escolar. Diz a secretária que tal trabalhadora tem “vida útil de apenas seis anos”, portanto custa muito ao município. Aos novos gestores não interessa melhorar as condições de trabalho, diminuir a quantidade de refeições elaboradas por cada uma das merendeiras, equipar melhor as cozinhas. Melhor é trocá-las por trabalhadores da Comlurb (empresa de economia mista), o que além de transferir dinheiro público para a iniciativa privada, isenta a prefeitura de encargos trabalhistas e obrigações no caso de doenças do trabalho.
A limpeza das escolas estaduais já há muito não são desempenhadas por funcionários de carreira, empresas que ganham 2.000 reais por cada trabalhador, mas que os remuneram com o salário mínimo, são as “responsáveis” pela limpeza e manutenção da rede.
Os trabalhadores docentes nunca foram tão desvalorizados.
Violência, baixa remuneração, desrespeito à autonomia pedagógica, falta de democracia nas escolas, salas entupidas.
Seguindo à risca a “pedagogia da relação custo-benefício” ambas secretarias tocam a educação como empresas, os números valem mais que as pessoas. O alarde feito por conta do baixo IDEB produziu a demissão da antiga secretária estadual Teresa Porto.
O ranqueamento e a meritocracia produziram monstrengos como o Nova Escola na rede estadual e o 14º salário na municipal. Políticas remuneratórias que atacam a isonomia entre os profissionais da educação, instalando a disputa entre as escolas e mesmo dentro de uma própria escola, são reflexo de diretrizes estipuladas por organismos financeiros internacionais e seguidos à risca por todas as esferas de governo.
Pensam em números e esquecem as pessoas.
Tanto o governo estadual quanto o municipal do Rio de Janeiro (maior rede da América Latina), burlam a lei e não aplicam corretamente as verbais legais na educação. Tanto a Constituição Estadual quanto a Lei Orgânica Municipal determinam que 35% da arrecadação sejam carreados para a área, mas nem os 25 % mínimos determinados pela Constituição Federal são alocados corretamente. Em outubro, a 1ª Vara da Infância da Capital condenou a SME a devolver 2,2 Bilhões de reais de verbas desviadas da educação municipal.
Toda essa política neoliberal, tem produzido frutos.
De acordo com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), do governo federal, o Estado do Rio de Janeiro só está à frente do Piauí, a rede municipal do Rio também mostra performance não condizente com o segundo maior PIB do Brasil.
A quantidade de analfabetos funcionais tem crescido alarmantemente nas duas redes, é impressionante a quantidade de estudantes que chegam ao ensino médio sem saber ler e com noções matemáticas compatíveis com crianças de 8 anos de idade.
Com o argumento de que a evasão e consequentemente a exclusão tem como principal tributária a reprovação, as redes tem dificultado a retenção, obrigando a promoção sem a apreensão dos requisitos básicos à série seguinte, o que em última instância exclui o aluno do conhecimento produzido historicamente pela humanidade.
A falta de profissionais nas redes também são pústulas abertas na carne da educação pública básica. Na rede estadual cerca de 600 professores abandonam as salas de aula a cada mês. No município estima-se uma carência de 12 mil professores.
A solução escolhida pelas duas redes é a mesma, diminuem o tempo de permanência do aluno em sala de aula. Ao invés de 6 aulas diárias, o segundo segmento do ensino fundamental (antigo ginásio- 5ª à 8ª série), conta agora com 5 aulas. Numa conta aproximada roubam 200 aulas anuais de nossos alunos e filhos. O Colégio Pedro II, só para que tenhamos uma noção, além de sua reconhecida excelência no ensino, tem em sua grade curricular, 6 aulas diárias, inclusive aos sábados.
A gestão democrática tão apregoada nos últimos anos é letra morta na legislação.
Na rede estadual a escolha do diretor é feita pelo deputado da base governista do “curral eleitoral” onde se encontra a escola.
Na rede municipal existe a consulta à comunidade, nem sempre respeitada pelo governo. Cria-se tanto empecilho à candidatura, o que somado as múltiplas atribuições do cargo (o diretor de uma escola municipal quase nunca se imiscui nos assuntos pedagógicos) que muitos professores desistem do pleito. As direções perpetuam-se nas escolas.
A falta de continuidade dos projetos pedagógicos é outro câncer na vida das redes, na rede municipal nem a própria secretaria sabe quantos projetos estão em curso, todos porém tem as mesmas características, repasse de verbas públicas para ONGs e empresas privadas, precarização da mão-de-obra docente, escamoteamento da falta de profissionais de educação e todos vem sabe-se lá de onde, pois nenhum passa pela discussão da categoria e/ou da comunidade. A última jóia produzida pela secretaria é o Ginásio Carioca, que estipula que professores de matemática dêem aulas de ciências e os de história de língua portuguesa.
Como podemos ver, o neoliberalismo impõe aos filhos dos trabalhadores uma escola de péssima qualidade, nega-lhes as ferramentas que lhes possibilitarão a autonomia e a inserção no mundo do trabalho com conhecimento propedêutico e técnico para que se imponham à ideologia da classe dominante, pois não tem o acesso aos rudimentos da produção científica e cultural da humanidade.