7 de maio de 2011

ELE VOLTOU!

Em meio à notícias tenebrosas sobre o Botafogo, pelo menos um alento: Maicosuel voltou!
Voltou em grande estilo. Se aconteceu em amistoso, sem muita cobrança, voltou.
Marcou um golaço, digno de Maicosuel.
Que esse amistoso, esse golaço, esses poucos minutos em campo, esse choro emocionado de verdadeiro botafoguense sejam o prenúncio de dias melhores.
Veja o golaço!

6 de maio de 2011

FAÇA O QUE EU MANDO, NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO!

É impressionante a desfaçatez com que o governo estadunidense e a grande mídia internacional (inclusive a do Brasil) noticiam assassinatos, de homens, mulheres e crianças nos quatro cantos do mundo: Iraque, Líbia e Afeganistão, para citar os casos mais recentes, cometidos pelos EUA, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
No assassinato de Osama Bin Laden eles se superaram.
Nenhuma linha, palavra ou imagem em desacordo com os procedimentos assumidos pelos EUA. Ao contrário, os heróis, em uma cinematográfica ação, livraram o mundo do maior dos malfeitores, o inimigo público número um, um bandido capaz de desestabilizar econômica e politicamente todo o mundo.
Nenhuma palavra sobre o estímulo dado pelos próprios EUA à preparação militar da Al Kaeda, assim como já havia feito com Saddam Hussein, nenhuma palavra sobre o apoio financeiro e militar aos talibãs. Sujeira jogada para baixo do tapete.
Mas o maior assombro veio com a veiculação da notícia de que para “arrancar” a delação do esconderijo de Osama, o governo estadunidense se utilizou de tortura aos prisioneiros de Guantánamo.
Assombro para os que acham que tortura é crime hediondo. Para quem acha que todos merecem um julgamento justo, para quem acha que INVADIR um país soberano é como uma declaração de guerra.
Para os “lambe-botas” da grande mídia (a rede grobo à frente), tudo normal. Renato Machado quase sorriu quando deu a notícia da tortura.

28 de abril de 2011

MAIS UMA DO METRÔ! SÓ DO METRÔ??

Mais um fato chocante nos chega pelas câmeras de TV envolvendo o Metrô.
Além dos vagões lotados, atrasos, apagões, trânsito sem maquinista, nos choca a cena de agressão gratuita contra um passageiro, não aleatoriamente negro, acusado de ter pulado a roleta e ter tentado viajar sem pagar a passagem.
A grobo, que veiculou as cenas, entrevistou várias pessoas e todas indignadas insistiam que se tratava de falta de preparo dos seguranças da empresa no lidar com os passageiros. Alguns entrevistados reclamaram sensibilidade do “capitão do mato”.
A empresa se desculpou publicamente e disse que o “capataz” já havia sido afastado do trabalho.
Ao senso comum tudo não passa de um culpado individual e para a empresa um caso isolado.
Nada mais falso.
O estado brasileiro, capitalista, diga-se de passagem, tem nos últimos tempos aumentado os níveis de violência institucional, que vem sido denunciado pelo movimento sindical e popular, mas que estimulado pelos meios de comunicação de massas ganha repercussão entre a população, principalmente as camadas mais populares.
A criminalização dos movimentos populares, com prisão de manifestantes (vide o episódio da visita do Obama) e repressão violenta à manifestações (vide episódio da bomba nas escadarias da ALERJ em 2009) tem tentado impedir a livre manifestação popular de caráter classista e de oposição aos governos.
Os pobres, seja em suas manifestações reivindicatórias, seja nos deslocamentos para vender sua força de trabalho,seja em suas manifestações culturais, são vistos como marginais e bandidos, inimigos pois do "status quo".
É, logicamente, uma política pensada e acordada pelos ideólogos do capitalismo brasileiro no embate travado todos os dias na sociedade de classes em que vivemos.

19 de abril de 2011

Dia de cão no Rocha Faria!

Sofri um acidente hoje pela manhã.
Ao descer da van que me levava até o trevo de Santa Cruz para pegar o ônibus para Conceição de Jacareí, pisei em falso e torci o tornozelo. Meu pé ficou deformado, não conseguia mudar a posição do pé que estava aduzido ao extremo.
Uma passageira desceu da van e ficou me fazendo companhia até a chegada dos bombeiros da SAMU.
Fui levado ao Rocha Faria, fui muito bem atendido, o médico que me atendeu fez a redução da luxação, fiz uma radiografia que constatou que não havia fratura.
O que me chamou a atenção foi a quantidade de gente em camas improvisadas pelos corredores do Hospital. Parecia que estávamos num daqueles filmes de guerra onde existem muitos feridos e os leitos são insuficientes para atender a todos dignamente.
Como pode um governo gastar 1,2 bilhões de reais na reforma do Maracanã, outros tantos bilhões para preparar alojamentos, instalações esportivas para as Olimpíadas e manter um hospital público que atende toda a população da grande Campo Grande e grande Santa Cruz naquela precária condição.
Fui atendido bem rápido pois estava com o pessoal da SAMU, que me acompanhou em todos os procedimentos.
Pacientes se aglomeravam por todos os lados para serem atendidos, dezenas de doentes pelos corredores.
Quando saí do Hospital percebi que logo ali adiante, perto da Sendas, se erguera mais um suntuoso hospital particular.
No Rocha Faria, muitos funcionários contratados, serviços terceirizados, falta de um tipo de atadura com gesso para fazer a minha imobilização.
Tudo isso parece planejado. A cada dia mais hospitais particulares, mais gente pulando para os planos de saúde, enquanto a população mais pobre sofre nas filas e corredores.

17 de abril de 2011

DO CAOS, DE QUEM É A CULPA?! ou de como a educação pública municipal se tornou tão caótica!

No início dos anos 90, com as privatizações nos governos Itamar e FHC, introduziu-se no Brasil um conceito novo ao movimento popular e sindical, tratava-se do neoliberalismo.
Naquela época, apesar das privatizações de empresas como CSN e Usiminas entre outras, à população de um modo geral e à nossa categoria especificamente (aparentemente não estávamos no olho do furacão, como metalúrgicos e ferroviários, por exemplo) soava “forçação” de barra de uma esquerda ultra radicalizada a utilização de conceitos como neoliberalismo e globalização, principalmente quando com o fim do socialismo real, ideólogos do capitalismo preconizaram exaustivamente que a história teria chegado ao seu fim com o capitalismo eterno.
Passados quase 20 anos é muito mais palpável para nossa categoria, entendermos o conceito de uma nova roupagem com que se traveste a sociedade das mercadorias.
Ao mesmo tempo em que o estado brasileiro ia se desfazendo (a troco de banana ou de papéis podres) de grandes empresas que impulsionaram o capitalismo tupiniquim, ia também diminuindo a oferta de serviços públicos à população.
Hoje o que vemos é a face mais perversa desse modelo, mesmo a pouca verba aplicada nesses serviços, notadamente na educação, tem uma grande fatia destinada à iniciativa privada.
Nessa linha temos uma enxurrada de projetos na rede municipal do Rio de Janeiro (é possível que nem a própria secretária conheça todos) que tem por finalidade precípua o desvio de verbas públicas para a “privada”.
Se há alguns anos tínhamos o servente fazendo a limpeza dos pátios e salas, passamos a ter logo depois as “cooperativas”, que faliam vez por outra, deixando seus trabalhadores precários, com uma mão na frente e outra atrás, hoje a Comlurb toma para si essa tarefa.
Se as quase extintas merendeiras preparavam as refeições e educavam com noções de higiene e postura adequada durante as refeições os nossos alunos, hoje novamente a Comlurb se arvora ao papel daquelas funcionárias concursadas.
A prefeitura quando não privatiza, como nos dois exemplos acima, simplesmente extingue cargos, como o artífice, porteiro, agente de pessoal, orientador pedagógico, orientador educacional, coordenador de turno...
No final de 2010 a carência de pessoal era enorme. Já naquela época o abandono da carreira, seja por baixos salários, seja por péssimas condições de trabalho, seja pela falta de autonomia pedagógica (ou então por tudo isso junto) fazia com que o déficit de PI chegasse a quase 8500 professores, o de PII por volta dos 6000, carecia a rede de 3.800 merendeiras, 1600 agentes educadores, 5600 serventes 1600 agentes administrativos, 1300 agentes auxiliares de creche e no mínimo 2700 agentes de portaria.
Se do ponto de vista econômico (transferência de verba pública para a “privada”) sofremos um grande golpe do capital, do ponto de vista pedagógico a pancada não foi menos dolorosa. A imposição de “metodologias” criticadas e retrógradas (Alfa e Beto, Ginásio Carioca, etc.) e a premiação por metas são faces de uma mesma moeda que preconiza a meritocracia e o currículo “sub-mínimo” (que no caso do Rio de Janeiro se transforma em máximo).
Chagamos ao cúmulo da SME elaborar simulado à nefanda prova Brasil, institucionalizando o reinado da avaliação externa pasteurizada e pasteurizadora, como se possível fosse homogeinizar realidades tão distintas desse continente brasileiro.
A quem atingir índices pré-estabelecidos, 14º, 14 salário e meio, a quem não atingir, menos verbas e mais intervenção.
A preocupação com índices faz com que a prefeitura esqueça das pessoas e vislumbre só números, a menos que esses números sejam em favor da educação pública, como prova a condenação da prefeitura pela 1ª Vara da Infância a devolver 2,18 bilhões de reais a educação municipal. O desleixo para com os números se torna patente também quando se trata dos baixos salários pagos à categoria. Nos últimos 4 anos a participação dos salários dos servidores nas despesas da municipalidade caiu de 50 para 42%, se levarmos em consideração que sempre temos os menores reajustes do funcionalismo é fácil perceber quão defasados estão nossos salários. Os 21% que exigimos em nossa campanha salarial minimizam emergencialmente nossas perdas, mas é só compararmos nossos vencimentos com os de municípios menores e mais pobres para constatarmos que ainda precisamos de muita luta e organização para atingirmos um patamar salarial minimamente justo.
Não podemos esquecer que também precisamos implementar nosso Plano de Carreira Unificado, há muito aprovado pela Câmara e nunca respeitado pelos diversos governos.
Todo esse quadro faz com que os profissionais da educação da cidade do Rio de Janeiro adoeçam mais e em maior intensidade, Síndrome de Burnout, Síndrome do Pânico, alergias, tendinites, problemas vocais, problemas de coluna, são algumas das afecções típicas de nossa categoria. A escola pública da cidade do Rio de Janeiro adoece e também mata.
A violência tem levado ao desespero, profissionais, alunos e responsáveis. A morte dentro de sala de aula do aluno Wesley no ano passado, assaltos, depredações, violência física e psicológica sofrida por professores e funcionários tem para nós uma matriz geradora, o descaso da prefeitura em primeira instância, mas também dos governos estadual e federal.
A falta de pessoal, a falta de infra-estrutura, as salas super-lotadas, os baixos salários, são alguns dos motivos que fragilizaram de tal forma essa rede que a violência instalada deverá ser enfrentada e denunciada, mas mais ainda temos de mostrar à sociedade quem são seus verdadeiros semeadores.

10 de abril de 2011

SOBRE A TRAGÉDIA DE REALENGO.

Em meio a consternação geral com a tragédia ocorrida no dia 7 em Realengo em que como dirigente sindical tivemos tarefas de solidariedade e denúncia sobre o descaso das "autoridades" para com a educação, posto a carta abaixo da professora Maíra Baczinski, de Niterói, que recebi por e.mail, e que em alguma medida reflete um sentimento que perpassa toda categoria.

"Tiros em Realengo.

Hoje, dia 7 de abril, a sensação que eu tive ao chegar na escola em
que trabalho às 7h da manhã era de que o dia seria longo. Ao longo da
manhã, inúmeras confusões, brigas, tumultos me fizeram achar que os
“demônios” estavam soltos. Mal sabia eu o que acontecia em outra
escola, não muito longe dali, do outro lado da cidade. Durante o
intervalo, escutei de uma funcionaria da escola que tinha acontecido
um acidente em uma escola em Realengo. Mas só pude realmente me
interar das noticias quando cheguei em casa.

Impossível descrever com palavras tudo que passou pela minha mente.
Sensações confusas, tristeza, muita tristeza, cansaço, e também
revolta, desilusão, desespero, solidão, agonia. Desconsolo, solidão.
Eu sozinha acompanhava aos prantos o noticiário local que dava plantão
sobre as ultimas informações ao vivo do lugar.

A primeira sensação era que poderia ter sido comigo. Poderia ter
acontecido ainda agora, na escola em que eu estava. Poderia ter sido
com o Andrei, um menino levado da 603 que quase tomou suspensão porque
bateu num coleguinha da turma. Poderia ter sido com a 802, uma turma
que eu gosto muito, cheia de alunos inteligentes e participativos, que
provocam discussões e questionamentos interessantes.

Poderia ter acontecido com outros colegas meus, amigos da faculdade ou
de profissão, que estão diariamente enfrentando a realidade escolar,
mesmo com todas as dificuldades, salários baixos, escolas longes,
falta de pilot pra escrever no quadro, falta de livro para os alunos,
alunos desinteressados, analfabetos funcionais, agressivos e mal
educados.

Não estou querendo colocar a culpa nos alunos não. Mas eles
infelizmente estão chegando assim na escola. Não conhecem a palavra
respeito. Conhecem muitos palavrões, xingamentos, adoram provocar uns
aos outros, xingar a mãe e o pai alheio, ou falar que alguém falou
sobre o pai de outro. Isso é tão comum que as vezes nem nos
incomodamos mais com esses pequenos incidentes, esses “disse-me-disse”
que perturbam a paz e provoca o que os especialistas chamam de bulling
e a meu ver é fofoca mesmo, essa coisa de controlar a vida alheia e
provocar até tirar o outro do sério.

Hoje, no terceiro tempo de aula, por volta das 9h, dois alunos
começaram a se provocar no meio da aula. Eu pedi silencio, e continuei
passando o dever no quadro. Quando me virei de costas, saíram se
batendo com chutes e pontapés. O meu impulso foi ir para o meio da
briga, (apesar de os especialistas sugerirem que os professores se
afastem) e como eram pequenos, consegui segura-los. Assim que separei
os dois, o Luiz Carlos, um garoto de 12 anos e 1,20m começou a
implorar: “por favor professora, não me suspende, por favor, por
favor!”, muito insistente e quase chorando, me prometendo que não ia
mais fazer isso.

Nesse momento, a descontrolada era eu. Fiquei muito nervosa com a
situação, não sabia o que fazer. Não podia deixar o acontecimento
passar impunemente, mas também não podia deixar de me comover com
aquele toco de gente implorando para não ser punido, muito mais vítima
da violência do que o seu provocador. Segurei as lágrimas para não
chorar ali, na frente da turma, e logo em seguida fui para o banheiro,
os dois desceram para a orientação educacional.

Eu, que deveria ser o exemplo, a representante das boas ações, daquilo
que é certo, eu que passei mais de 20 anos estudando, me preparando
para o ofício, simplesmente não sabia o que fazer. Os anos da
faculdade, a quantidade absurda de conteúdos relacionados a seres
vivos, células, artrópodes, genética, vegetais, nada daquilo me era
útil naquele momento. Mesmo as matérias da educação, como sociologia,
psicologia, filosofia nem de longe tocaram em algum conteúdo que me
ajudasse a tomar alguma providencia naquela situação. Até o mestrado
em Ensino de Ciências e Saúde não me ajudou. Anos de estudo jogados no
lixo, é esse meu pensamento. Mal sabia eu o que estava acontecendo em
Realengo naquele mesmo momento, e que isso que eu estava passando “não
era nada” em comparação com a escola Tasso de Silveira.

Lembrei depois também da prova do concurso, que só avaliou
conhecimentos teóricos sobre essas matérias, e também dos exames
médicos e psicológicos que tive que passar para assumir o cargo. Em
nenhum desses momentos me informaram sobre como lidar com a violência
ou me avaliar se eu estava preparada para agir quando acontecesse na
minha frente. E, no entanto, como professora de ensino fundamental do
estado do RJ posso relatar inúmeros casos de violência e agressão que
ocorrem diariamente nos corredores e espaços mediadores da escola,
dentro dela ou nas proximidades. Os palavrões, xingamentos,
provocações, depredação do espaço e do material dos próprios alunos,
são ocorrências diárias dos espaços escolares públicos do RJ. É
impossível dizer exatamente quando foi que isso tudo começou para
acabar com a tragédia de hoje. Mas também seria muito ingênuo
acreditar que isso nunca aconteceria. É que a gente não gosta de
alimentar os maus pensamentos, e fica acreditando que “isso não vai
acontecer”, sem plantar as sementinhas no presente, no aqui agora. E
aí o pensamento positivo não faz milagre sozinho. Enquanto a violência
for ignorada e omitida nas escolas, ela se perpetuará e se dissipará
em níveis que preferimos não imaginar. Como essa tragédia de hoje.

E nós até podemos refletir sobre as condições das escolas de hoje no
Rio. Podemos e numerar os problemas. Falta infra-estrutura. As escolas
não têm carteiras para todos os alunos, e muitas turmas são
aglomeradas em salas muito cheias. Falta material, equipamentos e às
vezes, falta até telha e chove na sala de aula, como presenciei uma
vez, dando aula. Faltam professores e funcionários no quadro regular
das escolas, sobrecarregando os que estão ali trabalhando com turmas
superlotadas, ou acumulo de funções, impossibilitando um bom trabalho.

O nosso governo estadual tem a cara de pau de pagar R$ 680 líquidos de
piso salarial para os professores. Só para comparar, qualquer
atendente de telemarketing ganha mais do que isto, visto que recebe
além de um salário mínimo, cerca de 530 reais, mais vale transporte e
alimentação. Nós não recebemos esses auxílios.

Mas o mais grave não são esses dados. São as conseqüências para os
alunos: baixo rendimento, indisciplina, má formação dos alunos e
altos índices de evasão. As estatísticas apontam que cerca de 80% dos
estudantes de classe baixa evade antes da conclusão do ensino
fundamental. A avaliação do ensino vai de mal a pior, e índices como o
SAEB apontam o RJ com um dos piores resultados no ranking nacional.

Mas o x da questão perpassa a questão estadual. Atualmente a escola
não consegue formar ninguém, e mesmo quando forma, forma o que? Que
tipo de pessoas são formadas quando tem um bom rendimento escolar?
Será que a conclusão dos estudos conduz necessariamente a um futuro
digno, a uma profissão, a inclusão social, a um emprego e um salário
decente?

Provavelmente por isso, os alunos se inspiram em outros tipos de
"heróis", que estão longe de serem realmente uma boa saída. Por
exemplo, faz pouco tempo que aquele goleiro Bruno assassinou a
namorada de uma forma brutal. Essa é uma tragédia anunciada que deve
ser tida como o modelo daquilo que os nossos alunos/filhos admiram. O
sonho de qualquer garoto em idade escolar é se tornar jogador de
futebol e ganhar muito dinheiro (que nenhum professor pode sonhar em
ter). O sonho das garotas, por sua vez, é se tornar modelo/atriz, e,
na medida do possível, engravidar de alguém com condições financeiras
para sustentá-la para o resto da vida. Duas pessoas jovens, que ao
menos para os nossos padrões de “vida boa” teriam tudo para serem
felizes, gastarem seus dinheiros e criar o seu filho simplesmente
acabaram com suas vidas, mostrando que isso não é suficiente para o
final feliz . Esse outro crime tão cruel, revela simplesmente para
onde estamos encaminhando nossas crianças, uma vez que dentro da
escola elas não encontram referencias felizes, ou modelos de vida que
lhes inspirem (como os jogadores e modelos, que mesmo sem estudos,
conseguem muito mais dinheiro do que nós, pais e educadores, meros
mortais). Que tipo de sociedade estamos criando? Que modelos
oferecemos para nossos filhos/alunos? Em quem eles podem se inspirar?

Em se tratando de vida acadêmica, desde o ensino fundamental até as
pós-graduações, cada vez mais inclui-se conteúdos específicos,
aumentando o currículo. As escolas e universidades são avaliadas como
boas quando seus alunos passam por testes teóricos dificílimos, que
avaliam a aquisição de conteúdos. Mas não se discute como se tratar
de questões transdisciplinares, como respeito, cidadania, violência,
trabalho. Não se discute a diferença da quantidade de horas de aula de
cada disciplina, que gera um desequilíbrio, privilegiando algumas,
como ciências, português e matemática, e negligenciando outras tão
importantes quanto, como artes, sociologia, história e filosofia. Não
se discute as práticas, as maneiras de fazer, os métodos de ensino e
de avaliação. Apenas submete as pessoas a provas de raciocínio lógico
e extrai-se um índice baseado na média de acertos. Todos os
sentimentos, a auto estima, a violência, a tolerância, a amizade, o
ambiente, os sentimentos de pertencimento, a organização coletiva, a
mobilização e discussão de temas contemporâneos, tudo isso fica de
fora. De fora das avaliações e de fora das preocupações.

Obviamente os governantes se envergonharam desse índices, que andam
baixíssimos, e reunidos em seus gabinetes tomaram decisões, a meu ver,
equivocadas, para "solucionar o problema", sem consultar ou
compartilhar essa questão com os profissionais que pensam e atuam na
educação. Para eles, “solucionar o problema” parece se restringir a
melhorar os números das avaliações, e não refletir sobre o cotidiano
escolar e a base estrutural do problema. São remediações que podem até
forjar uma melhoria no algarismo do índice, mas que efetivamente não
contribuem para a melhoria do ensino.

Agora que um crime hediondo como esse, o Massacre da escola Tasso de
Silveira vêm a tona a única conseqüência desse descaso histórico com a
educação: o assassinato de 12 crianças e mais 11 vitimas em
atendimento, todos com menos de 14 anos.

Passado o choque provocado pela exploração do caso na mídia, é
preciso que as pessoas despertem para a gravidade do caso, não apenas
penalizando o autor dos disparos, mas sim alertando para o abandono
que a educação sofre no Rio de Janeiro e em todo país. A culpa
individual não soluciona em nada o problema, e seguir adiante sem
pensar em todas as facetas da educação que levaram a este episódio é
tapar o sol com a peneira e não observar com atenção a realidade em
que vivemos.

A escola é o lugar do conhecimento, de transformação, de formação de
cidadãos, de seres humanos. Todos passamos por ela, e esperamos que
nossos filhos, netos, amigos ali se formem, para se tornarem
professores, médicos, enfermeiros, advogados, enfim, profissionais e
cidadãos que atuem na sociedade, pela sociedade.

Quem já ligou a televisão antes das 11h da manhã e acompanhou a
programação infantil, deve perceber a quantidade de desenhos violentos
que são oferecidos diariamente para os pequenos. Não se mostra
referencias de paz, afeto, integridade, mas sim, de heróis mutantes,
superdotados, ou simplesmente ricos, lutando contra monstros, pessoas,
as vezes até países. Se formos falar dos filmes, então, mais uma
enxurrada de violência gratuita e valorizada, sequencias de mais de 10
minutos de tiros e efeitos especiais que transmitem a mensagem: “olha
como a violência é bela, que herói maravilhoso conseguiu matar um
exercito inteiro sozinho,” e permanecemos em silencio com nossos olhos
vidrados na tela esperando o final bem sucedido de um único
personagem. Não quero dizer que a televisão seja exclusivamente
culpada, mas que exerce uma influencia forte sobre os jovens, isso não
pode ser ignorado. Quem nunca saiu excitado de uma sessão de cinema,
com os “atos heróicos” vividos durante 1h30 de sangue e tiros? Quem
nunca se imaginou atirando na fila do banco ou detonando bombas para
encontrar uma vaga no estacionamento? A nossa cultura está cada vez
mais vazia de bons exemplos e valores, e cada vez mais perdida na
formação dos nossos sucessores, nossos filhos, netos, bisnetos.

Eu creio que isso é o pior: essa sensação de que não podemos fazer
nada, de que somos poucos e mortais diante do "sistema", da
organização geral e maior que rege todos os problemas. Temos que lutar
contra o medo, a inação e o conformismo, e catalizar esse sentimento
de frustração, revolta e inseguranças em ações para a melhoria das
escolas de nosso país.

Vamos discutir a educação, vamos pedir às autoridades que compreendam
que a educação é uma estrutura base crucial para o desenvolvimento da
nação, que não pode ser remediada com medidas superficiais e de curto
prazo. Precisamos de mais verbas para a educação, mais profissionais,
mais infra-estrutura, mais livros, mais amor.

Vamos fazer com que essas crianças nao tenham morrido a toa, vamos
impedir que mais inocentes sejam assassinados, nao apenas a tiros, mas
diariamente massacrados pela organização social a que pertencemos.

Professora Maíra Baczinski
Niteroi, 7 de abril de 2011."

25 de março de 2011

O saldo da visita do Obama

O primeiro presidente negro dos EUA deixa um saldo bastante negativo de sua visita ao Brasil.
Em princípio quebrou uma tradição que impunha que a uma visita americana ao Brasil, uma anterior brasileira tinha que ser realizada. As novidades param por aí.
Talvez nunca tenhamos visto tamanho aparato de segurança mobilizado para a visita de um chefe de estado ao Brasil.
No Rio de Janeiro, helicópteros sobrevoaram a cidade antes, durante e depois da visita, com uma intensidade sem precedentes. O fechamento do comércio e do trânsito nos arredores do Theatro Municipal só não se consolidou por completo graças a ação judicial promovida pelo Bar Amarelinho, verdadeiro símbolo da cidade, que dessa forma continuou funcionando. De resto parecia que estávamos em um país em guerra. A segurança exigiu inclusive que o metrô não circulasse entre as estações da Uruguaiana e Cinelândia.
Em Brasília, policiais federais brasileiros foram revistados por seguranças americanos, uma vergonha.
Antes da chegada de Obama ao Brasil, 13 manifestantes foram presos, acusados de terrorismo após ato público na porta do consulado americano no Rio, quando houve lançamento de coquetel molotov, acredita-se que por provocadores.
Os homens presos tiveram suas cabeças raspadas, incomunicáveis, num gravíssimo ataque às garantias individuais mínimas, mesmo em se tratando de um estado burguês como o brasileiro.
Em território brasileiro Obama comunica a invasão e bombardeio à Líbia, oficialmente até quarta-feira passada quase 100 civis já tinham sido mortos pelas forças da Otan.
Para o governo brasileiro e exportadores primários, a decepção em constatar que o fim do protecionismo não veio junto com Obama.
Ah! Já ia esquecendo, o Bar Amarelinho, que conseguiu liminar para continuar funcionando no dia da visita de Obama ao Rio, foi fechado anteontem pela Vigilância Sanitária.
Qualquer retaliação não é mera coincidência.